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Dívidas a prestadores de serviços acabaram e vizinhos desavindos já bebem café juntos. Um administrador de um condomínio do Lumiar, afogado em dívidas e com vizinhos desavindos, recorreu 44 vezes ao Julgado de Paz de Lisboa e conseguiu "endireitar" as contas e, até, as relações entre moradores. O exemplo tem sido uma inspiração para a zona. Pelo Julgado de Paz de Lisboa já entraram mais de 5400 processos desde que abriu as portas, há mais de oito anos. João Pedro Rosado é, sem dúvida, o homem que mais contribuiu para os números, somando 44 processos. E garante que não fica por aqui. "Tenho convites para administrar outros condomínios com dívidas e já aceitei um deles", confessa. O condomínio que João Pedro Rosado administra há três anos, com a ajuda de mais dois vizinhos, tem 188 condóminos. Há seguramente no país freguesias menos populosas do que o complexo de prédios situado no Lumiar. É uma "cidadezinha" com 16 elevadores, um jardim interior, uma infinidade de máquinas e muitos prestadores de serviços, entre porteiros e funcionários de limpeza. As despesas correntes rondam os sete mil euros por mês, mas as dívidas chegaram a atingir 44 mil euros. Dois dias depois de ter assumido a administração, tinha a EDP no prédio para cortar a luz. "A conta de electricidade em atraso era de dois mil euros. Os porteiros não recebiam salários há quatro meses e as funcionárias da limpeza há sete", recorda. Perante o caos, o administrador decidiu recorrer ao Julgado de Paz, uma vez, depois outra e mais outra. "Quando percebi que conseguia resolver as coisas num instante, fiquei logo fã. Aquilo é absolutamente fantástico", frisa. Ao contrário do que seria de esperar, João Pedro Rosado não ganhou inimigos. As relações com vizinhos que mal conhecia e com os quais mantinha diferendos relacionados como condomínio são hoje saudáveis. "Entrámos no Julgado de Paz numa situação de tensão, quase de confronto físico, e saímos dali para beber café juntos", explica o administrador. Prédios já têm fundo de reserva "As pessoas perceberam que era preferível pagar do que não pagar. As assembleias estão com mais participação e há mais gente a querer ajudar e a apresentar sugestões. Até já temos um fundo de reserva e conseguimos negociar os melhores preços para as prestações de serviços, porque pagamos a pronto. Na zona, somos os que pagamos menos pela manutenção dos elevadores", assegura. No Lumiar, a história do condomínio situado na Alameda da Música espalhou-se rapidamente. A equipa de João Pedro Rosado tem sido assediada para assumir as rédeas de outros complexos. Um dos desafios, um condomínio com 187 condóminos, já foi aceite. "Tenho aqui uns dois ou três casos complicados, que vou levar ao Julgado de Paz, afirma o homem que ainda tem a administração de um prédio em Benfica, onde é dono de um apartamento. João Rosado não se cansa de elogiar quem trabalha no Julgado de Paz. "Tenta sempre que as pessoas se entendam, tem uma capacidade de conciliação brilhante", diz, acrescentando admirar a postura calma e elegante do juiz, perante pessoas que, por vezes, estão exaltadíssimas". João Chumbinho é o juiz-coordenador do Julgado de Paz de Lisboa e garante que, quando aparece alguém para tratar de casos relacionados com condomínios, vem depois a rua inteira. O passa-palavra ainda é a melhor forma de divulgação dos julgados de paz. "Por vezes, as pessoas só precisam de conversar, de ser ouvidas", explica, sublinhando que a vertente humana é muito valorizada. Não vem nas estatísticas, nem está documentada nos estudos científicos, mas é o grande trunfo dos julgados. E é assim, a conversar e a ouvir, que se conseguem tantas conciliações. O juiz garante que, em oito anos, nunca sentiu necessidade de chamar a PSP ou de usar a toga para exercer a sua autoridade. Fonte: Jornal de Notícias |