|
Custo do serviço na cidade é acima de outras cidades, mesmo no comparativo com municípios de porte médio
Sentir-se mais seguro e ter uma gama de serviços disponíveis com um simples toque de interfone é o sonho de muitas pessoas. Entretanto, isso pode custar caro, principalmente em Bauru. Segundo o Sindicato da Habitação (Secovi), a média do preço de condomínio pago pelos bauruenses é de R$ 420,00. O valor supera o cobrado em cidades de porte maior ou no mesmo patamar, como em São José do Rio Preto e Sorocaba. A mão de obra é apontada como o principal fator desse encarecimento.
De acordo com a Secretaria municipal de Planejamento (Seplan), há 410 condomínios verticais na cidade. Além desse número, existem ainda 19 loteamentos fechados e 14 condomínios horizontais com, no mínimo, 300 lotes.
Todos pagam essa taxa que, se comparada a de cidades de maior porte que Bauru, é considerada alta. Segundo o Secovi, o valor médio do condomínio bauruense está acima de São José do Rio Preto, que é de R$ 380,00, e também de Sorocaba, que gira em torno de R$ 350,00.
Para Leilane Strongren, diretora de condomínios do Secovi em Bauru, o preço fica nessa média justamente pela mão de obra empregada. “Um porteiro hoje em dia é alguém que tem segundo grau completo e precisa ter alguns conhecimentos, como de informática, por exemplo. A mão de obra qualificada faz com que o salário dele aumente e, consequentemente, o valor da cobrança também”.
De acordo com a diretora, a média quantitativa de mão de obra bauruense nos condomínios é de cinco funcionários. Desses, há um responsável pela limpeza e o restante é formado por porteiros, que revezam os turnos. Atualmente, o piso salarial de porteiro é de R$ 800,00 na cidade.
Mão de obra
E é exatamente para custear essa despesa que o condomínio acaba tendo um alto valor. De outro lado, Leilane Strongren menciona que o valor do piso “segura” mais a mão de obra na cidade. “Há três meses, eu não tenho um porteiro que pediu demissão em Bauru. Isso ocorre pelo salário que recebem. É uma forma de segurar o profissional qualificado, mesmo que isso acabe refletindo no preço condomínio”, diz.
Baseado exatamente nessa lógica, ela justifica a realidade de Sorocaba e o respectivo valor médio do condomínio desse município. “Em Sorocaba, o valor do salário de um porteiro é R$ 780,00. A diferença parece pequena, porém, é preciso ver o contexto da cidade. Lá, existem muitas indústrias. Com esse salário, a média dos condomínios pode diminuir, mas, não conseguimos manter a mão de obra qualificada. Para se ter uma ideia, não consigo preencher vagas de porteiro lá. Eles acabam pedindo demissão dias após entrarem no emprego”, esclarece.
Ela ainda aponta que, em Sorocaba, há ainda muitos condomínios “populares”, o que também contribui decisivamente para a cobrança média apresentar a diferença.
Questionada sobre o valor de São José do Rio Preto - também abaixo do cobrado em Bauru -, Leilane Strongren argumenta que lá o que prevalece é uma questão patronal. “Há uma briga patronal grande lá. Três grupos disputam para ver quem será o representante patronal dos porteiros. Então, com isso, o salário acaba sendo mais baixo e, assim, o valor do condomínio também”, menciona.
Dois extremos
Entretanto, mesmo com as justificativas em relação às outras cidades, o fato é que a cobrança média de condomínio ainda é alto em Bauru. Em termos absolutos, o valor se diferencia de forma extrema de acordo com o que tipo de moradia (vertical ou horizontal) e a localidade.
Segundo o Secovi, o condomínio mais barato na cidade custa R$ 90,00. O conjunto localizado no bairro Quinta Ranieri, zona Oeste de Bauru, é um loteamento horizontal com mais de 100 unidades.
Já o valor mais caro é 22 vezes maior. Ao contrário do caso anterior, a unidade é uma construção vertical batizada de Jardim Estoril 1, mas localizada no Altos da Cidade. Na propriedade, a cobrança mensal é de aproximadamente R$ 2 mil.
“Além de outros fatores, em condomínios horizontais, onde há mais apartamentos, o valor é mais baixo. Isso é uma questão lógica. Quanto mais moradores, mais gente para dividir os custos”, conclui a diretora de condomínios do Secovi, Leilane Strongren.
____________________
“Esse valor não é de São Paulo?”
Com 19 anos no ramo e atualmente com 65 condomínios como clientes, Maria Regina Binatto, proprietária de uma administradora de condomínios em Bauru, acha muito salgado o valor médio de R$ 420,00 para condomínio aqui. Para ela, o patamar é o de prédios na Capital do Estado.
Para ela, a média ideal para o valor cobrado mensalmente em condomínios em Bauru seria em torno dos R$ 300,00, ou seja, R$ 120,00 a menos do que o referencial cobrado na cidade. “Seria exatamente um local com cerca de 60 apartamentos e uma portaria. Isso geraria um valor de R$ 300,00 de condomínio, o qual considero um ótimo valor médio para a cidade”, argumenta.
Informada pela reportagem sobre o valor divulgado pelo Secovi como média cobrada em Bauru, ela duvidou, em sinal de espanto. “Tem certeza que você viu certo? Esse valor é alto. Acho que você pegou o número da cidade de São Paulo”, questiona.
Ao saber que o custo está correto, Maria Regina Binatto aponta que para diminuir a despesa o ideal seria automatizar as portarias. “60% do valor pago do condomínio é a mão de obra. Automatizando as portarias, isso reduziria bastante. Mas, a população ainda tem medo disso. O fator humano ainda é visto como importante para a segurança”, conclui.
____________________
Edifício elimina portaria para reduzir as despesas internas
Apesar do custo alto da média bauruense, um edifício localizado na rua Antônio Alves ainda se diferencia dessa realidade. O prédio tem um padrão considerável, boa localidade, poucos apartamentos e, mesmo assim, ainda cobra uma taxa de condomínio bem abaixo do valor médio da cidade. Entretanto, não por muito tempo.
Segundo a síndica do local, a professora Jaqueline Rodrigues Mendes Baptista, há anos estão sendo feitos vários esforços para segurar o valor. “A síndica anterior retirou a portaria justamente por questão de custos. No lugar da figura do porteiro, ficou um zelador que acumula funções e instalamos um bom sistema de segurança, com câmeras e cerca elétrica”, relembra.
Atualmente, o valor do condomínio, que concentra 22 apartamentos – com 92 metros quadrados e três dormitórios cada – está em R$ 285,00, ou seja, bem abaixo da média bauruense, de R$ 420,00. Como deficiência estrutural, ela aponta apenas que o espaço da área de lazer é reduzido.
Ainda em relação ao baixo valor pago, ela, que é síndica há apenas um ano, explica que sente dificuldades em fazer obras no prédio com a receita. Segundo Jaqueline, “sobra muito pouco. O certo seria pintar o prédio, mas o que foi arrecadado não é suficiente. Para fazer alguma obra é preciso uma arrecadação a mais”.
Jaqueline Baptista também vê com dificuldades a manutenção desse custo. “A administradora já avisou que a taxa vai subir, porém, não sabe quanto. Esse valor foi segurado por muito tempo. É um valor realmente baixo pelo que oferece e, se pudesse, queria que continuasse assim”, completa.
____________________
Administradoras influenciam no valor das cobranças
Antigamente, era função do síndico – ou de um conselho de moradores – responder por toda a parte administrativa e burocrática de um condomínio. Hoje, tal encargo mudou, com a presença mais próxima das administradoras no desempenho desse papel.
Elas surgiram com o objetivo de agirem como intermediárias em vários setores de responsabilidade dos condomínios, fornecendo o suporte de serviços administrativos – cobranças, solução de conflitos, acompanhamento de assembleias, elaboração de atas, acompanhamento de custos e despesas fixas – e ainda com assessorias jurídica e contábil.
Hoje, essas empresas fornecem mais do que isso. Há 20 anos, Bauru foi a pioneira em agregar a esses serviços a contratação de mão de obra. Ou seja, porteiros, funcionários de limpeza e outros funcionários também passaram a ser fornecidos pelas administradoras.
É lógico que isso representa um custo a mais que, por óbvio, reflete no valor pago no condomínio. Entretanto, a diretora de condomínios do Secovi, Leilane Stronger, explica que tal transferência, além de “desafogar” o síndico, apresenta benefícios a longo prazo.
“O próprio prédio pode fazer a contratação do funcionário e isso ficaria mais barato em um primeiro momento. Porém, os problemas apareciam mais na frente. Quando a administradora participa dessa parte de mão de obra, ela coloca todos os encargos trabalhistas. Já o prédio não calcula isso. Ele repara esse custo a mais somente no futuro”, diz.
Segundo Leilane Stronger, quando a administradora contrata a mão de obra ela já calcula um valor de 92% dos encargos trabalhistas, como licenças, férias, décimo terceiro, entre outros. Já quando os prédios fazem a contratação sem intermédio da empresa não incluem esses custos.
“Se o prédio contratar o funcionário sozinho, ele paga somente 45% a 60% de encargos trabalhistas. Mas essa redução ocorre por que ele não calcula encargos futuros, como férias e licenças. E fora o problema que é quando um porteiro, por exemplo, falta. Sem a administradora, o síndico tem que se virar na hora”, conta Stronger, que também possui uma empresa administradora de condomínios e amplia que “muitos síndicos que passaram a administrar sozinhos, estão voltando como clientes da empresa”.
Fonte: JCNet |