Entrevista / Delegado Mauro Machado

"Roriz nunca fez grilagem de terra"

O  governador Joaquim Roriz jamais teve participação em atividades de parcelamento de solo, nem qualquer ligação com grileiros. Quem afirma isso é o delegado Mauro Aguiar Machado, com a autoridade de quem, como titular da Delegacia Especial do Meio Ambiente (DEMA) durante um ano e meio, foi o policial que mais prendeu grileiros em Brasília, tendo investigado profundamente o esquema de grilagem de terras no DF.

Aos 43 anos, 14 na Polícia Civil, Aguiar fez ontem importantes revelações ao Jornal de Brasília.  Ex-secretário-adjunto de Segurança no governo de Cristovam Buarque (1995-98), ele conta que foi pressionado "por pessoas da cúpula do PT" a revelar,  durante a campanha de 1998, o conteúdo de gravações de grampos telefônicos que haviam sido feitas em segredo de Justiça.

"Eles disseram que precisavam das fitas para prejudicar o Roriz na campanha, mas eu me neguei a ajudá-los. Fui exonerado logo depois disso e sofri grandes represálias do governo Cristovam", afirma. "Nas fitas não havia nada contra Roriz. Eu jamais colocaria uma investigação policial a serviço de causas políticas", ressalta.  "Sempre fui um técnico e não aceitaria  pressões espúrias", garante.

COMO o senhor chegou ao  governo do PT?

Formei-me em Direito na Universidade de Brasília (UnB) com muita dificuldade. Venho de uma família humilde de Goiânia e sempre trabalhei bastante. Fui até engraxate. Acho que o trabalho só faz bem às pessoas. Na UnB, conheci a Arlete Sampaio (ex-vice-governadora do DF), que era então estudante de Medicina.

 ELA convidou o senhor para o governo?

Quando a Arlete se tornou vice-governadora, me indicou para ser secretário-adjunto de Segurança. Este cargo é ocupado, tradicionalmente, por um delegado da Polícia Civil. Era preciso ter um bom técnico naquela posição, pois o secretário escolhido por Cristovam, o Roberto Aguiar, era um filósofo, não tinha nada a ver com a área de Segurança.

 ENTÃO, a sua indicação foi técnica e não política?

Eu nunca fui político. Cheguei à Secretaria pelo meu trabalho, e logo me decepcionei com o governo Cristovam. Os "pardais", por exemplo, foram comprados numa licitação dirigida, com cartas marcadas. Não serviam aos interesses da segurança pública, e sim para fazer uma indústria de multas. As minhas divergências com o governo eram muitas e acabei sendo afastado.

 PARA que posto o senhor foi depois disso?

Como prêmio de consolação, o então diretor-geral da Polícia Civil, Teodoro Rodrigues, me mandou para a Delegacia Especial do Meio Ambiente (DEMA), que era inexpressiva na época. Só tínhamos 20 agentes e duas viaturas. E os inquéritos – que vinham da CPI da Grilagem – estavam incompletos e mal conduzidos. Primeiro tratei de sanear os inquéritos e depois comecei a prender os grileiros.

 O GOVERNO lhe dava apoio nesse sentido?

O governador Cristovam me disse que não tinha interesse em fazer a repressão policial aos grileiros. Ele falou que passaria a questão dos condomínios para o Magela (Geraldo Magela, hoje deputado federal e candidato oficial do PT ao Buriti), que era o secretário da Habitação.

 MESMO assim, o seu trabalho foi em frente?

Fiz uma investigação profunda da grilagem durante um ano e meio. Um dos investigados era o Carlos Germano, que atuava em quase duas dezenas de condomínios na região de Sobradinho. Teoricamente, ele era o empreendedor, mas eu sabia que, na verdade, não passava de um laranja. Meu objetivo era descobrir os grileiros de verdade.

 FOI por isso que o senhor solicitou a escuta telefônica,  os grampos?

Quem pediu foi o Ministério Público. Num trabalho conjunto, nós estávamos querendo descobrir a ligação do Carlos Germano (que era o laranja) com os verdadeiros grileiros. Daí é que veio o grampo, devidamente autorizado pela Justiça.

 O GRAMPO, então, foi perfeitamente legal?

O grampo em si era legal. O problema é a forma como ele foi usado. A Lei 9.200/96, que trata da quebra do sigilo telefônico, é muito clara. No artigo nono, ela estabelece que os trechos das gravações que não interessam ao objeto da investigação devem ser destruídos, a pedido das partes ou do Ministério Público. Só que isso não aconteceu. Eu fiz a minha parte, que foi entregar as fitas ao Ministério Público. Mas elas acabaram sendo usadas com propósitos políticos.

 COMO assim?

 Pessoas da cúpula do PT, cujos nomes eu prefiro não revelar, me pediram as fitas. Elas diziam que era para prejudicar o Roriz. Eu me recusei a entregá-las e fui demitido sumariamente uma semana depois. Mais tarde, durante a campanha, me pediram as fitas de novo. E é claro que eu não dei. As fitas não estavam mais comigo. E mesmo se estivessem eu não as daria, pois o meu papel era o de fazer uma investigação policial, não uma perseguição política.

 O SENHOR  sabe explicar o que aconteceu com as fitas grampeadas?

O importante, como eu disse, é que a lei não permite o uso indevido da quebra do sigilo telefônico. Por isso, encaminhei ao Ministério Público apenas aquilo que diziam respeito ao objeto da investigação.

 ENTÃO,  como outros trechos não relacionados com a investigação acabaram vazando?

Isso é algo que precisa ser investigado. Naquela fita que foi citada pelo Correio Braziliense (o jornal reproduziu, na edição de quarta-feira, um diálogo no qual dois acusados de grilagem citavam o nome de Roriz como avalista de um empréstimo), havia dois trechos que interessavam à investigação. Foram esses trechos que eu marquei para serem encaminhados à Justiça. E no meio estava a conversa sobre o Roriz, que, repito, não tinha absolutamente nada a ver com aquilo que estava sendo investigado. Alguém usou esse trecho da fita indevidamente. E isso é inaceitável.

MAS por que essas pessoas do PT queriam tanto as fitas? Havia algo que pudesse mesmo prejudicar o Roriz?

Não havia absolutamente nada. Investiguei a grilagem no DF em profundidade. E em todos os casos – não apenas neste, da fita –, o nome do governador nunca foi citado. Posso afirmar, perante a sociedade e a Justiça, que jamais houve ligação do governador Joaquim Roriz com grupos de parcelamento de terras. Jamais houve ligação dele com grilagem. E sei o que estou dizendo, pois fiz mais de 300 inquéritos a esse respeito. O nome do Roriz jamais apareceu em nenhum deles.

 POR QUE, então, o Correio Braziliense falou de Roriz?

O que aquele jornal fez foi de uma parcialidade explícita. Eles pinçaram um diálogo que não tinha nada a ver com a história.

 NO QUE mais o senhor avalia que o jornal errou?

 Vou processar o Correio por crime contra a minha honra, pois o jornal afirmou que a investigação da grilagem terminou por causa de um descuido meu. O jornal não me procurou para ouvir a minha versão. Eu realmente deixei os grileiros saberem que estavam sendo grampeados, mas só no final do inquérito. Foi uma estratégia para poder estabelecer a ligação deles com o laranja.

VOLTANDO às pressões políticas. O senhor nunca chegou a pensar em entregar as fitas?

De forma alguma. Sou uma pessoa justa e não quero, para os outros, aquilo que não desejaria para mim. Portanto, jamais poderia compactuar com esse tipo de atitude do governo do PT.

 O SENHOR sofreu muitas represálias por causa dessa sua atitude de não ceder?

Sim, chegou até a ser uma coisa ridícula. Logo depois de eu ter me negado a entregar as fitas, o Teodoro convocou uma reunião com todos os delegados. Ele, então, leu um papel dizendo o seguinte: "Por ordem do governador Cristovam Buarque, o delegado Mauro Aguiar Machado está exonerado da Delegacia do Meio Ambiente. Ele simplesmente leu esse papel, levantou e foi embora dali.

 O QUE aconteceu depois com o senhor?

Eles me transferiram para o plantão da Delegacia da Samambaia. Isso foi claramente uma represália. Eu fui exonerado porque não cedi a pressões políticas.

 HOJE, o senhor é um aliado do governador Roriz?

Não sou aliado político de ninguém. Eu sou apenas um técnico. Só quero fazer o meu trabalho. Quando o atual diretor da Polícia Civil, Laerte Bessa, me indicou para o cargo, eu estava consciente de que poderia enfrentar resistências dentro do governo Roriz, já que eu havia trabalhado no governo anterior, de Cristovam Buarque. Sei, inclusive, que muitas pessoas procuraram o governador Joaquim Roriz para falar mal de mim.

 MESMO assim, o governador resolveu nomeá-lo para a Delegacia de Santa Maria? A que o senhor atribui essa decisão?

Foi tudo muito transparente. O Laerte Bessa garantiu ao governador que podia ele confiar em mim, porque eu nunca fui político. Então, o governador falou ao Bessa que iria me dar uma chance e me nomear provisoriamente por seis meses, para ver como seria o meu trabalho.

 O QUE aconteceu depois desse tempo?

No quinto mês, o governador Roriz telefonou para o Bessa e disse para fazer o termo da minha nomeação definitiva. E ainda falou para ele: "Se você tiver outros petistas com essas competência, mande para trabalhar comigo". Ou seja, isso prova que o governador Roriz não é uma pessoa radical. O que ele quer saber é se a pessoa tem competência para trabalhar direito.

 COMO foi o seu trabalho em Santa Maria?

Enfrentei de frente os problemas de Santa Maria e reduzi a criminalidade. Fiz, também, um trabalho social. Até coloquei um caixa eletrônico do BRB dentro da delegacia, para que os cidadãos pudessem sacar dinheiro com total segurança

 COMO o senhor se comporta na hora de enfrentar os criminosos?

Eu nunca recorri a expedientes agressivos para fazer alguém confessar um crime. Prefiro usar a perspicácia, e com isso acabo conseguindo solucionar os casos.

 DIANTE  do que está acontecendo, o senhor acha que a sua carreira pode ser prejudicada?

Estou indignado com o uso covarde que vem sendo feito, da minha imagem, por um jornal que tem o único objetivo de perseguir politicamente o governador. Quem me conhece sabe da minha idoneidade e não posso me submeter a esse tipo de coisa. Sempre cheguei a todos os cargos por competência, nada mais. Eu era assinante do Correio até ontem, mas agora não quero saber de ler esse jornal.