No Paranoá, o impasse continua 

São centenas de tendas com teto de plástico e barracos de madeira, situados ao lado do condomínio Itapoã, no Paranoá. Por baixo dessas habitações improvisadas, famílias se espremem sobre o chão de papelão, colocado por cima do mato seco do cerrado. Ali, cerca de 3.200 pessoas estão instaladas, em terras pertencentes à União. Unânimes, os moradores afirmam: “Só saímos daqui em caixões”. 

A invasão dos barracos sobre o mato fica colada ao condomínio Itapuã – área pertencente à Aeronáutica, que mantém no local diversos soldados. O condomínio também foi invadido. No local, onde há um entra e sai constante de carros, motos e pessoas a pé (o que levanta nuvens de poeira), existem casas de alvenaria coloridas, com jardins ao redor e cercadas por muros de cimento. Para alguns moradores de Itapoã, os vizinhos já são uma extensão do condomínio. 

Os invasores estão no local desde o início da semana. Na quinta-feira passada, receberam da Secretaria do Patrimônio da União ultimato para deixar a área (de 250 mil metros quadrados). Porém, os líderes da recém-criada comunidade não estão dispostos a sair e esperam que o GDF, representado por Odilon Aires (secretário de Assuntos Fundiários), negocie com a União a posse das terras – a reportagem do Jornal de Brasília não conseguiu entrar em contato com o secretário. 

“Esperamos que, em breve, as terras passem da União para o GDF. Dessa forma, poderemos regularizar a área e, quem sabe, transformá-la em lotes. Isso pode ser feito sem violência, de forma pacífica”, comenta Eliomar, membro a comissão de moradores. Outro representante, Euclides (eles não informam os sobrenomes por medo de represálias), garante: “Daqui nós não arredaremos pé”. 

Os 250 mil metros de área estão totalmente ocupados, de ponta a ponta do terreno. O emaranhado de madeiras fincadas ao chão, repletas de arames farpados, fica a menos de cinco metros da pista (que liga o Paranoá a Sobradinho). As crianças brincam ao lado dos carros. Quando um veículo pesado passa, veloz, lança nuvens de poeira sobre os invasores. 

Parque perto da revitalização 

Retirada dos invasores do parque do guará se aproxima
do final. Área será
recuperada. 

Falta pouco para o Parque do Guará começar a ser revitalizado. O Sistema Integrado de Vigilância do Solo (Siv-Solo) já retirou mais da metade das 181 famílias que ocupavam a área. Até o final da próxima semana, a operação de retirada dos invasores, que está sendo feita sob a supervisão da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação, deverá ser encerrada.  Logo depois, a Secretaria do Meio Ambiente começa a implantar o projeto de recuperação do parque. 

A operação já removeu 91 famílias das 180 instaladas na área de preservação ambiental. Destas, 70 eram moradoras de Brasília há mais de cinco anos e foram contempladas com um lote em Santa Maria, conforme promessa do governador Joaquim Roriz. As outras que não preencheram os critérios do programa habitacional e foram encaminhadas a casas de parentes ou ao Centro de Desenvolvimento Social (CDS), onde vão receber auxílio social, podendo ter o aluguel pago por um mês. 

A professora primária Raimunda Lenice, 34 anos, já está com a mudança pronta. Ela e o marido vieram de Belém (PA), há dez anos, “tentar a vida” na capital, depois de três anos o casal não conseguiu mais pagar aluguel e se mudaram para parque,  “Agora não tenho mais medo de ser mandada embora, porque é meu. Estou muito feliz”, garante Raimunda. 

Segundo o capitão Márcio, do Siv-Solo, a área onde as famílias estão recebendo lotes é privilegiada, por estar na região central de Santa Maria, perto do futuro fórum, da Administração, do posto policial e da Caesb. 

A desocupação faz parte do projeto de revitalização dos parques ecológicos do Distrito Federal para dar condições de uso a população. Com a saída dos invasores, o segundo passo será retirar os chacareiros. ”Por enquanto, eles possuem termo de uso do solo permanecem do local, até que o governo possa indenizá-los”, diz o diretor do Siv-Solo, coronel Benjamim Ferreira Bispo. 

Antes mesmo da saída dos chacareiros, a Secretaria do Meio Ambiente iniciará o projeto de melhoria e recuperação do parque. A idéia é chegar ao final do ano como parque em condições de uso pela população.