Explosão do Entorno ameaça DF

Crescimento da população é muito maior nos municípios goianos que usam serviços do Distrito Federal.

Adriana Nicacio

Omaior crescimento populacional da região geoeconômica do Distrito Federal não está nos assentamentos. Muito menos nas cidades satélites. E menos ainda no Plano Piloto, onde, ao contrário, a população até cresceu. Está no Entorno do Distrito Federal, em especial nos municípios goianos que o compõem.

Por ano, o Entorno do Distrito Federal cresce 3,6%, mais que o dobro da média nacional, que fica em 1,9%. A cidade de Águas Lindas, por exemplo, em 1996, tinha cerca de 6 mil habitantes. Quatro anos depois a população saltou para 16 mil. O Entorno saiu de uma população em 1991 de 538.222 para mais de 900 mil no ano passado. No mesmo período, a população do Distrito Federal cresceu a média de 2,6 por cento, muito inferior à do Entorno e semelhante à de outras capitais do País.

Esses dados acabam com alguns mitos. O que faz inchar a população da região não é a entrega de lotes, pois os assentamentos cresceram muito menos que o Entorno. Também não é a busca de educação ou saúde, pois nesse caso haveria um crescimento menos desigual entre as satélites e as demais áreas. Todos esses fatores podem contribuir, mas o que tem maior peso é a busca de oportunidades de trabalho.

Sem possibilidades de se instalarem no Distrito Federal, os migrantes - assim como os habitantes que sofrem redução em seu poder aquisitivo - terminam por se instalar onde os aluguéis são mais baratos, onde podem comprar um terreno por preço menor e onde conseguem transporte para seus pontos de trabalho no Distrito Federal. O Entorno.

Segundo o articulador político do Plano de Prevenção Primária à Violência do Governo Federal, José Carlos Moraes, o fenômeno de inchamento da região do Entorno reflete e pressiona o Distrito Federal. Ele explica que são 19 municípios de Goiás e 3 de Minas Gerais, com quase um milhão de habitantes, que crescem sem infra-estrutura e dependem dos sistemas de saúde, educação, emprego e segurança do DF.

"Há a ilusão de que Brasília é o novo Eldorado. O migrante sai do Nordeste sem qualificação e se instala no Entorno, aumentando o crescimento desordenado, gerando o caos urbano", afirma José Carlos  Moraes.  Ele conta que se investirá mais de R$ 1 bilhão em 2002 na região, mas, acha, que mesmo assim é pouco. "Só Águas Lindas precisaria de meio bilhão".

O assessor da Casa Civil da Presidência da República, Ivan Franzoni, completa que a explosão populacional de Águas Lindas é o reflexo do que acontece nas demais cidades que compõem o Entorno. Para ele é evidente que existe uma grande procura de serviços em Brasília. "Vão para onde, sem infra-estrutura? Para Brasília, claro. Eles vêm em busca de atendimento médico até de Unaí (cerca de 180 km do DF)", lembra Franzoni. Na verdade, recorrem ao atendimento médico de Brasília os moradores de uma região muito mais ampla, que vai do Sul do Maranhão e do Piauí ao Leste da Bahia. Mas nesse caso se trata de atendimento eventual: um tratamento, uma consulta. No caso do Entorno, a população vem a Brasília para o atandimento do dia-a-dia.

A sub-secretária de Política Urbana e Informação, Denise Silveira, da Secretaria de Habitação confirma que o inchaço no DF é causado pelo Entorno. Denise explica que a alta taxa de crescimento do Entorno influencia a qualidade de vida do brasiliense, que divide os serviços públicos e convive com a insegurança. "O Entorno precisa se fortalecer. Só com investimentos poderá ser um potencial e não um problema", garante.

Lugar só para morar

A dona-de-casa Edinália Barbosa, 48 anos, chegou sozinha a Brasília. Vinte e oito anos depois a cegonha foi generosa e a família cresceu. No barraco alugado em Águas Lindas já mora com seis filhos e três netos. Edinália conta que veio do Piauí em busca de emprego e uma vida melhor.

Morou alguns anos na Ceilândia, àquela época uma cidade em implantação. Ceilândia prosperou. Sem condições para manter o aluguel, Edinália mudou para Águas Lindas.

Mas, no Entorno, Edinália só foi morar. A qualquer problema de saúde, corre para o Hospital Regional da Ceilândia. A netinha Kisila Barbosa, de 5 anos, será alfabetizada no Distrito Federal. Como em Águas Lindas não há muita oferta de emprego, dois filhos de Edinália trabalham no Plano Piloto, outros dois em Taguatinga e um no Recanto das Emas. "Águas Lindas não tem nada a oferecer para agente", reclama Edinália. (A.N)

População de Brasília cresce menos

O crescimento populacional de Brasília despencou nos últimos 20 anos. Caiu de uma média anual de 8% na década de 80, para 2,9% em 2000. A subsecretária de Política Urbana e Informação, Denise Silveira explica que o crescimento começou a se estabilizar nos últimos quatros anos.

Algumas cidades do Distrito Federal refletem o pequeno aumento da população. Por exemplo: a maior cidade do Distrito Federal, Ceilândia, cresceu apenas 0,01% entre 1996 e 2000. Em números absolutos equivale a apenas 115 novos moradores segundo o censo do IBGE de 2000.

O vigia José Barbosa Leite, 59 anos, percebeu a desaceleração no crescimento, embora não saiba explicar.  Conta que chegou a Ceilândia junto com a inauguração, em 1972. Dos sete filhos, só um não mora perto dele: o quarto, por ordem de idade, está no Recanto das Emas. José observou que os vizinhos continuam os mesmos; alguns, que viviam de aluguel,  mudaram-se para novas satélites ou para os assentamentos que foram sendo criados, mas nenhum outro, na Quadra 10 da Ceilândia Norte, chegou. "No início todo mundo vinha para cá, mas agora as pessoas mudam daqui", diz, rindo.

Neste mesmo período, não foram só os ceilandenses que perceberam os vizinhos mudando, sem que muitos outros chegassem para substituí-los. O Plano Piloto e Lago Sul tiveram crescimento negativo, -1,1% e -0,63% respectivamente. Para equilibrar as taxas negativas destas regiões, o Riacho Fundo registrou o maior aumento do DF com crescimento de 17,96%, ou seja, passou de 21.371 habitantes em 1996 para 41.378, seguido do Recanto das Emas em que no mesmo período época foram registrados 41 mil novos moradores, uma média de 15,83%.

Mesmo assim, o Distrito Federal teve crescimento inferior ao das capitais do Nordeste. As migrações fizeram com que Natal, Teresina, Salvador, Aracaju e Maceió crescessem em ritmo mais acelerado. O mesmo fluxo migratório aponta para o Distrito Federal, mas não chega a incrementar sua população nas mesmas proporções, pois os recém chegados acabam por se instalar no Entorno.

Os assentamentos, como Santa Maria, Riacho Fundo ou Recanto das Emas, acabam ficando com uma população que já estava no Distrito Federal: é o que explica o baixo crescimento de Ceilândia, por exemplo. As novas gerações de brasilienses proporcionariam a elas um crescimento maior, mas o fluxo habitacional acaba por se dirigir para os novos pólos.

Os números são claros. Entre 1996 e 2000, a população do Distrito Federal passou de 1,8 milhão para 2 milhões. O Entorno, que tinha pouco mais de 700 mil, chega perto de 1 milhão. Cidades como Gama, Taguatinga ou Samambaia deixaram de crescer.(A.N)