Atualizada às 14h58
24/10/2006
10h11 - A retomada das derrubadas em Vicente Pires começou tensa na manhã desta terça-feira. Uma equipe de 250 homens participou da operação que derrubou três casas habitadas - duas de alvenaria e uma de madeirite. Revoltados, cerca de 50 moradores protestaram na tentativa de evitar a ação. Houve discussão com a polícia e ameaças ao Chefe de Operações do Sistema Integrado de Vigilância, Preservação de Mananciais (Siv-Água), Rafael Moraes. A ação continua com mais demolições nesta tarde. A previsão é que 105
A primeira residência a ser demolida, na chácara 2 da Colônia Agrícola Samambaia, já estava desocupada. A moradora, Lídia Vasconcelos, 25 anos, conta que se mudou do local há três meses, depois de ser notificada pelo governo. A casa de apenas três cômodos ficava às margens do Córrego Vicente Pires. “Agora, vamos construir de novo aqui mesmo, só que mais afastado do rio”, diz Lídia. A ordem do Governo do Distrito Federal (GDF) ao Siv-Água é derrubar todas as construções em um raio de 50m de córregos e 30m de nascentes.
A moradora de outra residência marcada para ser demolida, Dilma Barbosa Ferreira, 37 anos, ofereceu resistência durante a ação. A moradora permaneceu na casa por duas horas. Com uma lata de tinner e fósforos na mão, Dilma ameaçou se matar dentro do local. Indignada, gritava diretamente ao Chefe de Operações, Rafael Moraes. “Você pensa que vai me render Rafael? Eu só saio daqui morta”, dizia.
Com medo de uma reação da moradora, o Corpo de Bombeiros desligou a rede de energia elétrica da residência. Dilma foi convencida a sair da casa pelo marido, o pedreiro Ezequias Rodrigues. “Isto é um absurdo. Nós construímos em um lugar permitido, mas com a chuva, o córrego mudou de lugar”, justificou o pedreiro. Rafael Moraes explica que a “mudança” acontece porque o curso do córrego é intermitente.
Depois de sair da casa, Dilma ainda tentou jogar o tinner que estava em Rafael Moraes. Descontrolada, a moradora foi contida pela presidente da União Única dos Condomínios Horizontais, Júnia Bittencourt. “Moradores de condomínios que se cuidem. Depois do que eu vi aqui em Vicente Pires, todos nós corremos perigo”, dizia Júnia aos prantos.
A dona da terceira casa demolida hoje, a desempregada Maria do Carmo dos Anjos, chegou ao lote pouco de a estrutura ir ao chão. “Não perdi dinheiro porque eu e meu marido morávamos de aluguel. No entanto, estamos jogados, não sabemos para onde vamos”, reclama. A habitação, de madeirite, também ficava a menos de 50m do Córrego Vicente Pires. Os móveis da família foram retirados pelos garis e deixados no lote.
Estudo
Segundo a presidente da Única, a diferença da Colônia Agrícola em relação aos outros locais de habitação irregular é que Vicente Pires demorou para realizar o Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima). “Então, nem o Ministério Público nem o Ibama observa esta situação. Só querem derrubar e provocar este desrespeito com as famílias”, reclama.
O presidente da Associação de Moradores de Vicente Pires (Arvips), Dirsomar Chaves, acompanhou as derrubadas. Antes da operação, Chaves ameaçava dar voz de prisão para quem tentasse demolir residências habitadas. Ele pede que o Ministério Público e o Ibama analisem o EIA-Rima. A Arvips sugere a transferência das famílias para uma área próxima a via Estrutural. “É isso que o EIA-Rima propõe. Nós pagamos pelo estudo e agora ninguém quer usá-lo”, reclama.
Entenda o caso
As derrubadas de Vicente Pires são condicionantes do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre o GDF e o Ministério Público no ano passado. O acordo, que previa a demolição de todas as edificações em APPs, encerrou o prazo na semana passada. Em um ano, o GDF derrubou apenas 30 das 549 edificações ilegais.
Como o GDF não conseguiu cumprir o TAC, as obras de abastecimento de água de Vicente Pires foram interrompidas pelo Ibama no último dia 26. O órgão ambiental admite a retomada das construções se o governo efetuar as derrubadas próximas a rios e mananciais.