Crime 
Suspeita de grilagem

Três pessoas são presas sob acusação de fazer comércio ilegal de terras públicas. Autor das denúncias é cunhado de Márcio Passos, acusado de grilagem pela CPI da Câmara Legislativa


Renato Alves
Da equipe do Correio

Dois advogados e um gerente de escritório foram presos na manhã de ontem acusados de integrar uma quadrilha de grileiros. Eles foram surpreendidos por agentes e delegados da Delegacia Especial do Meio Ambiente (Dema) dentro de uma sala do Edifício Assis Chateaubriand, no Setor de Rádio e TV Sul. Segundo a polícia e testemunhas, a sala funcionava como uma imobiliária de diversos condomínios construídos em área pública. Lá eram vendidos e cobrados o pagamento dos lotes. 
Os policiais cumpriram mandado de busca e apreensão, expedido pela Justiça a pedido da Promotoria de Defesa da Ordem Urbanística (Prourb). Os advogados Kleber de Andrade Pinto, 36 anos, e Sheila Kirehner Mattar, 30, foram presos juntamente com André Lincoln Brandão da Costa, 23, gerente da Solução Assessoria e Cobranças. 
Os três foram denunciados por João Alves Mendonça, que também está envolvido no esquema de grilagem. Ele prestou depoimento na Dema e na Promotoria Pública na última segunda-feira. A irmã de João Mendonça, Luiza, é casada com Márcio Passos, irmão de Alaor, Eustáquio e Pedro Passos Júnior. A família Passos é acusada de invadir, vender e explorar comercialmente terras públicas segundo relatório final da CPI da Grilagem feita pela Câmara Legislativa em 1995. 
A Solução Assessoria e Cobranças está em nome de Adelson Evangelista, 29 anos. O empresário trabalha como frentista no Auto Posto Célio Costa, em Buritis (MG). De acordo com as denúncias de João Mendonça, Adelson era apenas um laranja dos irmãos Passos. Policiais civis foram a Buritis ainda na noite de ontem para encontrar-se com Adelson, que, por telefone, disse estar disposto a contar tudo sobre o esquema de grilagem. 



OFERTA DE LOTES 


João Alves Mendonça era sócio majoritário da ATK Assessoria e Comércio Ltda., empresa que também é investigada pela polícia por vender terras públicas. ‘‘A ATK foi fechada em abril deste ano, mas toda a infra-estrutura foi transferida para a Solução’’, conta o delegado-assistente da Dema, Haendel Silva Fonseca. 
O cunhado de Márcio Passos decidiu abrir a boca porque se acha injustiçado. ‘‘Na Solução, ele assinava como cedente dos terrenos colocados à venda. Em troca, ganhava um lote a cada 100 terrenos vendidos’’, explica o delegado. 
Os acusados não quiseram dar entrevista. Em depoimento à polícia, negaram que vendiam terras públicas. Disseram que apenas foram contratados por Adelson Evangelista para fazer cobranças por meio judicial. No entanto, uma funcionária, que também foi levada para a Dema, disse que as cobranças eram feitas por telefone. Os devedores faziam o pagamento com cheques na sala da Solução. No momento da prisão, duas pessoas estavam na entrada da Solução para abater dívidas. Também foram ouvidas como testemunhas. 
Na sede da Solução, os policiais encontraram pilhas de panfletos com ofertas de lotes perto de Ceilândia, no Lago Norte, Lago Sul e Sobradinho. Foram apreendidos extratos de pagamentos de prestações, cessões de direito da terra e dezenas de cheques de clientes. 
Kleber Pinto, Sheila Mattar e André Costa vão responder por parcelamento irregular do solo, crime que prevê pena de um a cinco anos de cadeia, e por formação de quadrilha, que dá até três anos de reclusão. Kleber responde por outros três processos de parcelamento irregular. Até o início da noite de ontem, os advogados dos acusados não haviam conseguido a liberdade deles. Um juiz de plantão podia arbitrar fiança. 
João Alves Mendonça também vai responder por parcelamento irregular do solo. ‘‘Vamos investigar também o possível envolvimento dos Passos, já que eles também são denunciados’’, afirma o delegado-assistente da Dema.






STJ investiga Roriz e Passos



A pedido do Ministério Público Federal, o Superior Tribunal de Justiça investiga desde junho o relacionamento entre os irmãos Passos e o governador Joaquim Roriz. Durante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Grilagem, realizada em 1995 pela Câmara Legislativa, os Passos foram apontados como suspeitos de invadir, ocupar e explorar comercialmente terras públicas. Dossiê de 300 páginas dos deputados distritais Wasny de Roure (PT) e Rodrigo Rollemberg (PSB) mostra indícios de que Roriz favoreceu os Passos nessas operações — tanto no atual governo como nas duas gestões anteriores.