Nas pacatas ruas do Setor de Mansões Park Way (SMPW), pequenas faixas anunciam terrenos à venda em diversas quadras. Também há anúncios e quiosques na porta dos novos condomínios. A forte expansão imobiliária da cidade também abre espaço para a ação de grileiros. A avaliação é do próprio administrador do Park Way, Antônio Girotto. “Nem todos os lotes oferecidos são legais, infelizmente. Mas estamos lutando contra os grileiros e prendemos alguns na quadra 17 há duas semanas”, conta ele.
Um dos mais novos filões de crescimento da região é uma área de 60 mil metros quadrados, localizada na Quadra 26. O tradicional clube da Associação dos Servidores do Ministério da Educação (Asmec) dará lugar a três condomínios, com um total de 28 lotes. Há algum tempo o clube não é usado plenamente pela associação. O salão, as piscinas e o playground mostram sinais de abandono e apenas os campos de futebol são utilizados constantemente, em campeonatos amadores.
A área foi vendida por R$ 5,5 milhões para uma imobiliária. “Aqui, já vendemos várias unidades. O comprador sai com toda a documentação, pronto para buscar a escritura”, conta Franscisco Roni, responsável pela venda dos lotes. Segundo o empresário, a ação dos grileiros acaba prejudicando a imagem do setor imobiliário. “Há no Parque Way muitos casos de pessoas vendendo terrenos que não são residenciais, mas áreas verdes ou públicas”, diz. “Meus lotes custam de R$ 370 mil a R$ 420 mil. Aí a pessoa diz que tem outra opção a R$ 150 mil. É impossível. Tem que desconfiar”, alerta.
Na última semana, o Correio denunciou a atuação de uma grileira no Park Way. Ela vendia como lotes terrenos existentes em áreas verdes ou de preservação — nos dois casos, vedadas a construções. Após a denúncia, a Delegacia do Meio Ambiente (Dema) abriu investigação, principalmente nas quadras 17, 24 e 26. Um dos terrenos fica no Conjunto 9 da Quadra 17. A servidora Izabella Boratto, 35 anos, é vizinha da área e ficou indignada com a ação dos grileiros. “Fiquei realmente horrorizada. Esse pessoal anuncia como se fosse o lote 00, coisa que jamais existiu aqui”, afirmou Izabella.
O comerciante Daher Moisés Filho, 34 anos, que também mora ao lado do “lote 00” — como era vendido o terreno irregular —, teme que a grilagem possa descaracterizar o bairro. “A característica do Park Way são os lotes grandes, a baixa densidade populacional. A cidade não teria infraestrutura para aguentar um crescimento desordenado da população, que seria também um desastre ecológico, já que aqui há muito cerrado, muitos bichos”, avalia. “Eu não sei como alguém pode acreditar em uma oferta assim. No lote, há uma placa do Ibama dizendo que é área de proteção ambiental”, complementa.
Ousadia
Os grileiros ofertam seus “produtos” até para os empresários do setor. “Já me ofereceram duas áreas na quadra 8. Uma era falsa por ser área de proteção ambiental e a outra tinha uma procuração falsa”, conta Francisco Roni. “Eu percebi na hora que era golpe. Mas sou da área. O cidadão comum pode cair no conto do grileiro e dar a ele, por exemplo, um sinal da compra do lote antes de conferir a documentação. Aí, perde o dinheiro”, alerta.
O administrador do Park Way, Antônio Girotto, conta que dois grileiros foram presos há duas semanas tentando vender um terreno irregular na quadra 17. “A maior parte das transações não vai longe, mas já recebemos gente na Administração pedindo alvará de construção para lote que não existe. Gente que pagou por uma área grilada”, conta.
Na hora de comprar um lote de terceiros, a atenção deve ser redobrada. O advogado Átila Brasil, 33 anos, procura um lugar para construir a primeira casa própria. Surpreendeu-se ao ligar para um número que anunciava um terreno de 20 mil metros quadrados por R$ 700 mil. “Eu li no Correio semana passada a matéria da grilagem. Quando comecei a questionar o vendedor sobre a documentação, ele, que disse vender barato por causa de uma doença na família, desconversou”, conta. Um lote desse tamanho não sairia por menos de R$ 1 milhão.