LEGALIZAÇÃO
DE TERRA
Estrutural é risco
Tentativa do deputado distrital
José Edmar de regularizar a maior invasão do Distrito Federal é condenada por
parlamentares e arquitetos. Especialistas apontam problemas urbanísticos e
ambientais na favela onde vivem cinco mil famílias
Rovênia
Amorim, Dante Accioly e Rodrigo Hilário
Da equipe do Correio
O projeto de
regularização da invasão da Estrutural, apresentado pelo distrital José
Edmar (PMDB), vai enfrentar resistência dentro e fora da Câmara Legislativa do
Distrito Federal. Representantes de entidades ligadas ao urbanismo e ao meio
ambiente são contrários à permanência das cinco mil famílias que vivem na
área. A oposição condena a insistência de José Edmar em transformar a
favela em Zona Habitacional de Interesse Social.
O deputado Renato Rainha é um dos que critica a iniciativa. ‘‘A
área não pode ter assentamento com densidade populacional elevada. É uma
surpresa José Edmar insistir na regularização.’’ José Edmar já
apresentou dois projetos similares, abortados em 1995 e 1999. Rainha não
acredita que o GDF vá retirar as famílias da favela, caso a proposta de
regularização não seja aprovada.
O deputado Rodrigo Rollemberg é outro contrário à iniciativa de
José Edmar. ‘‘A Estrutural compromete o Parque Nacional de Brasília. Se a
Câmara aprovar o projeto, estará sendo conivente com a ocupação irregular do
solo’’, acredita. O Parque Nacional abriga a barragem de Santa Maria,
responsável pelo abastecimento de um terço do DF. Rollemberg defende a remoção
das famílias que moram no local e a implantação de um parque ecológico na área.
‘‘Além do problema ambiental, a favela não pode ficar lá porque foi
erguida sobre um gasoduto.’’
O presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) no DF,
Gilson Paranhos, explica que a permanência da favela compromete o meio
ambiente. ‘‘A culpa da invasão é do governo, que não faz planejamento
urbano. A população que precisa morar acaba invadindo áreas de proteção
ambiental. E aí fica o governo a reboque, tentando resolver o problema.’’
Conflito anterior
José Edmar recorre ao Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001 e Medida Provisória
2.220) para propor a regularização da Estrutural. ‘‘A lei federal traz o
reconhecimento de uma ocupação histórica’’, argumenta. Para Gilson
Paranhos, a justificativa não convence. ‘‘Não é possível regularizar a
invasão porque já foi área de conflito.’’
De acordo com a legislação, é permitido legalizar invasões em áreas
públicas, desde que os terrenos não tenham sido alvo de disputa na Justiça
nos últimos cinco anos — de 1996 a junho de 2001. O projeto prevê essa
ressalva apenas para lotes comerciais e institucionais. Deixa de fora os
terrenos ocupados pelos barracos que resistiram às operações de derrubada
durante o governo do petista Cristovam Buarque (1994 a 1998).
A coordenadora da Comissão de Políticas Urbanas do IAB-DF, Tânia
Battella, entende que o GDF deve assumir o problema da invasão sem comprometer
o meio ambiente. ‘‘Estudo de impacto ambiental não recomenda o uso
habitacional naquela área. O governo precisa ter coragem e enfrentar o problema
que se arrasta e prejudica todos nós.’’
No entanto, os deputados governistas apóiam a iniciativa de José
Edmar. Para o líder do PTB na Câmara Legislativa, César Lacerda, a regularização
da favela vai resgatar cinco mil famílias do abandono. ‘‘Quem mora lá há
mais de cinco anos e não tem lote em outra área do DF merece a regularização.’’
Da última vez que o projeto de regularização da Estrutural foi
apreciado pela Câmara, Carlos Lacerda posicionou-se contra. ‘‘Mas vou
examinar a proposta com carinho e verificar se há novidades. É uma mudança de
postura’’, admite. O deputado Benício Tavares — do mesmo partido de
Lacerda — assume a liderança do governo na Câmara, segunda-feira, e deve
brigar pela aprovação do projeto de José Edmar, ainda na próxima semana.
Interesses
Para o arquiteto Carlos Magalhães, ex-integrante do Conselho Técnico de
Preservação de Brasília (CTPB), as fixações habitacionais sem planejamento
urbanístico em torno do Plano Piloto são prejudiciais à qualidade de vida de
todo o DF. ‘‘É natural que tentem transformar a invasão em cidade, já que
a aglomeração foi incentivada pelo próprio governo. Mas espero que o bom
senso prevaleça e essa idéia não siga adiante.’’
Magalhães destaca ainda o interesse de empresas da construção
civil, que vêem a área como um promissor filão para aumentar os lucros da
especulação imobiliária. ‘‘A favela está dentro do Parque Nacional, um
ecossistema frágil que precisa ser preservado a todo custo, mesmo que isso
contrarie os fins eleitoreiros de quem propôs a mudança para cidade.’’
O arquiteto defende a remoção dos moradores da área, apesar de
reconhecer que o adensamento populacional da invasão já está consolidado.
‘‘Essas pessoas merecem um lugar decente para morar. Isso não acontece
porque as pessoas que ali vivem são usadas como massa de manobra para
satisfazer interesses pessoais, que não são os delas’’, afirma.
Opinião semelhante tem o especialista em ocupações urbanas Aldo
Paviani. Ele considera o local inadequado para servir de residência, tanto pelo
fato de a invasão estar muito próxima do Parque Nacional, como pela falta de
segurança. A favela fica às margens de um rodovia, o que coloca em risco os
moradores.
Frases
‘‘Do ponto de
vista urbanístico, é inviável haver conjuntos habitacionais às margens de
uma rodovia. Isso põe em risco a vida dos moradores da região.’’
Aldo Paviani
Especialista em ocupações urbanas
‘‘Desde o começo, o governo Roriz não apresentou planejamento
para a remoção das famílias da invasão da Estrutural. Houve omissão.’’
Renato Rainha
Deputado distrital pelo PL
Esperança
e desconfiança
Os habitantes da invasão
da Estrutural estão desconfiados. Eles sonham com a legalização da área, mas
não acreditam que o benefício seja concedido tão cedo. O discurso do
governador Joaquim Roriz, que na última quinta-feira deu a entender que a
regularização estava próxima, não foi suficiente para convencer os
moradores.
Que o diga a comerciante Rosimeire Aparecida Cunha, de 30 anos. Ela
mora na Estrutural há cinco anos e tem um mercadinho na quadra 6 da invasão.
‘‘Já perdi a conta das vezes que ouvi falar em regularização. Mas isso é
demagogia: Roriz já teve a chance de resolver o problema e voltou atrás’’,
critica. Rosimeire tem razão de se queixar. Logo após tomar posse, o
governador vetou protejo de José Edmar que previa a criação de uma Vila Operária
com dois mil lotes.
Permanência
O desempregado Adiel Pereira dos Santos, de 28 anos, está mais esperançoso.
Ele mora há quatro anos na Estrutural e ficou sabendo do projeto de regularização
da favela na semana passada. ‘‘Vai ser bom para o morador. Sei que a área
é para indústria, mas é o melhor lugar para o povo ficar: perto de
Taguatinga, Guará e Plano Piloto. Perto de onde tem emprego’’, acredita.
Adiel mora com a mulher e a filha num barraco de tijolo e madeirite
comprado por R$ 700 na quadra 4 da Estrutural. O carro-pipa e o caminhão do
lixo não passam por lá. Energia elétrica também não tem.
O desempregado teme que a regularização da favela afugente os
moradores mais pobres. ‘‘O povo vai ser obrigado a pagar impostos para ficar
aqui. Muita gente acostumada a ficar em casa recebendo leite e pão do governo
vai ter que arranjar emprego para pagar as contas ou então sair da
Estrutural.’’
Para a dona de casa Maria José Gomes, 25 anos, o GDF deveria
retirar as famílias da favela em vez de regularizar a área. ‘‘Qualquer
lugar para nós é melhor do que este aqui. Tem muito assalto e tiroteio’’,
conta. Dona Maria explica que pelo menos quatro moradores da quadra 13, onde ela
mora, foram obrigados a deixar a favela por causa da violência. ‘‘O pessoal
passa o dia aqui e a noite na casa de parentes. Todo mundo vive com medo.’’