| Entrevista - ANA MARIA NOGALES Análise da população para evitar invasões Luiz Carlos Azedo e Helena Mader Da equipe do Correio A ocupação desordenada do território, com o surgimento de invasões sem infra-estrutura, alavancou os índices de violência na capital federal. A constatação é da estatística e demógrafa Ana Maria Nogales, uma das maiores especialistas em estudos populacionais do Distrito Federal. Professora da Universidade de Brasília e coordenadora do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais da UnB, Ana Maria explica que a falta de planejamento foi regra desde a inauguração da nova capital e que é necessário analisar o crescimento da população para evitar o surgimento de novas invasões. “O crescimento demográfico é previsível, é possível saber quem vai demandar moradias novas daqui a 20 anos. Mas é preciso fazer esses estudos com muita antecedência para garantir a qualidade de vida. Uma cidade organizada não se faz sem planejamento prévio”, sentencia a especialista. Em entrevista ao Correio, Ana Maria relembra como foi a ocupação de Brasília, fala sobre as ondas de invasões e grilagem e defende o melhor aproveitamento de áreas já consolidadas. “A ocupação deveria ser feita com ordenamento, com a construção de pequenos prédios próximo a áreas com infra-estrutura urbana. Mas a verticalização não deu certo em Brasília porque as pessoas tinham a mentalidade do lote. Todo mundo queria um terreno, não bastava um apartamento”, explica. Qual a origem do descontrole na ocupação do território do Distrito Federal? Na época da inauguração de Brasília, o Plano Piloto foi ocupado e, à medida que as quadras eram construídas, as populações eram transferidas para outros núcleos urbanos. Não havia espaço dentro do Plano Piloto para todos os migrantes, que vieram espontaneamente para o DF. Essa população foi assentada em outras localidades como Taguatinga, Sobradinho e Gama. Já no início de Brasília surgiram novas cidades que só deveriam ter sido criadas depois que o Plano Piloto fosse totalmente ocupado. A demanda por moradia continuou intensa,principalmente a partir da década de 80. Como foi o crescimento do DF nessa época? É justamente a partir do final da década de 1970 e do início da década de 1980 que começa a ocupação do Entorno goiano, com a expansão de áreas como Cidade Ocidental, Luziânia, que já surgiram com dependência de Brasília. Hoje, em nossos estudos, não nos restringimos apenas ao quadrilátero do Distrito Federal e consideramos a região metropolitana mais ampla, que inclui os municípios limítrofes. A ocupação do Entorno coincidiu com a onda de grilagem e a construção dos condomínios irregulares. Por quê? Os condomínios surgiram pouco depois e começaram justamente no momento da liberalização e do fim do regime militar. Com a transição para a democracia, os espaços vão sendo invadidos com a alegação de que tinham a situação fundiária indefinida. Nesse momento, você tem uma ocupação sobretudo de classe média, que demandava um espaço para moradia. A explosão desses condomínios horizontais colocou em xeque o modelo de planejamento urbano do Distrito Federal. Qual seria a forma adequada de distribuir a população pelo território? Eu sou favorável ao adensamento de áreas já consolidadas. A ocupação deveria ser feita com ordenamento, com a construção de pequenos prédios próximo a áreas com infra-estrutura urbana. Mas a verticalização não deu certo em Brasília porque as pessoas tinham a mentalidade do lote. Todo mundo queria um terreno, não bastava um apartamento. Dessa forma, as cidades ficaram isoladas, em locais distantes, muitas vezes com fragilidades ambientais. Como deve ser feito o planejamento urbano para evitar que no futuro surjam novas invasões? É preciso planejar novas habitações e pensar como atender a população, já que é possível prever a forma como o número de habitantes vai crescer. Antes disso, precisamos analisar a possibilidade de ocupação de novas áreas, locais passíveis de expansão. Raciocinar qual será a demanda por transporte, quantas pessoas vão circular pelas vias. Uma cidade organizada não se faz sem planejamento prévio. Que problemas sociais surgem a partir da ocupação desordenada do solo? A violência é uma das principais conseqüências e verificamos isso em uma pesquisa recente. Como a população dessas invasões tem a possibilidade de a qualquer momento ser retirada, ela não cria vínculos com o local onde mora. Você não tem uma comunidade consolidada e isso diminui o controle social. As pessoas são jogadas em uma área sem infra-estrutura, distante de suas ligações anteriores. Tudo isso coloca as pessoas em situação de extrema vulnerabilidade. Brasília tem realidades muito diversas. Eu diria que é uma das cidades com mais desigualdade no mundo. Quais são as perspectivas para o futuro do DF? A população da cidade está envelhecendo. A grande novidade das últimas pesquisas é a desaceleração do crescimento populacional no país inteiro. O número médio de filhos é de 1,8 por mulher. Até os anos 1970, as mulheres tinham cinco, seis filhos em média. É uma mudança e tanto. Com isso, haverá menos demanda por moradia no futuro. O desafio será planejar a cidade para um grande número de idosos. Pensar que essas pessoas vão precisar de maior acessibilidade. |