Condomínios horizontais fechados se espalham por Londrina

Grandes e pequenos, luxuosos ou modestos, eles estão por todas as regiões da cidade

No mundo antigo e medieval, era comum que as cidades e vilas fossem protegidas por muralhas. De uns tempos para cá, os muros estão voltando, agora não para proteger as cidades de exércitos inimigos, mas para criar ilhas de segurança e qualidade de vida no ambiente urbano. Nos últimos dez anos, Londrina tem assistido a uma proliferação dos condomínios horizontais fechados. Antes eram apenas os residenciais de alto padrão, a maior parte na região próxima ao Catuaí Shopping Center. Hoje há condomínios horizontais em todas as regiões da cidade, desde os mais modestos – às vezes apenas uma rua protegida por muros – até luxuosos clubes residenciais que unem conforto, lazer e proximidade com a natureza.

Londrina tem atualmente 60 condomínios horizontais, sendo 35 de grande porte (com mais de 100 casas). Esses residenciais murados ocupam 4,5 milhões de m2, o equivalente a 186 alqueires ou 450 campos de futebol – onde há 3,5 mil unidades residenciais e vivem cerca de 15 mil pessoas.

Ainda há muito espaço para crescer, visto que a área de expansão urbana de Londrina atinge 245 milhões de m2. E não faltam empreendedores para investir no segmento. “A quantidade de projetos de empreendimentos analisados pela Prefeitura é muito grande”, diz Regina Nabhan, diretora-presidente do Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina). “São propostas de condomínios imensos, de loteamentos gigantescos, por empresas de Londrina, São Paulo, Curitiba e até do exterior. Sem dúvida temos um boom imobiliário na cidade.”

Em dissertação de mestrado defendida em 2010, o geógrafo Igor Zanatta analisou o crescimento dos condomínios horizontais em Londrina. “O que me surpreendeu foi a forma e a organização dos condomínios de pequeno porte, que contam com menos lotes e têm alguns aspectos semelhantes aos dos condomínios grandes”, diz Zanatta.

Para o professor Omar Neto Fernandes Barros, do Departamento de Geociências da UEL, a busca pela segurança é um dos motivos que explicam a procura pelos condomínios horizontais – mas não o único. “Afinal, os condomínios verticais também têm um rígido controle de segurança.”

A busca por uma qualidade de vida melhor, que concilie liberdade e segurança, provavelmente seja o fator decisivo para a expansão dos condomínios horizontais. É o que pensa Marcos Holzmann, diretor-proprietário da Teixeira Holzmann, empresa responsável por sete condomínios de alto padrão em Londrina, com mais dois em fase de construção. “De meados dos anos 90 para cá, as pessoas que ingressaram no mercado de trabalho querem proporcionar aos filhos a mesma qualidade de vida que tiveram na infância, com uma vida mais livre, segura e saudável.”

No trabalho de pesquisa sobre o tema, o geógrafo Igor Zanatta e o professor-orientador Omar Neto identificaram uma importante questão a ser enfrentada nos próximos anos: os condomínios horizontais estão cada vez mais próximos dos bairros pobres da cidade, tecnicamente chamados de “áreas subnormais”. As populações dos dois lados dos muros precisam conviver desde já – e resolver problemas como a pavimentação das vias de acesso. “É um encontro inevitável”, avalia Omar. “O que vai acontecer é a adaptação dos dois lados, tanto do morador do condomínio quanto do morador da área subnormal”, completa Zanatta.

Colina Verde foi a primeira tentativa

A história dos condomínios horizontais em Londrina remonta à década de 80, quando o médico e empreendedor Raul Lessa desenvolveu o projeto do Residencial Colina Verde, na Avenida Faria Lima, perto do campus da UEL. “Seria o primeiro condomínio desse tipo em Londrina. Tive a ideia depois de conhecer dois condomínios fechados em Campinas (SP)”, relembra Lessa. “Nosso projeto era fazer um loteamento com terrenos de mil metros quadrados, no mínimo, para proporcionar um padrão de construção mais elevado.” O projeto acabou não se realizando porque o prefeito da época, Wilson Moreira, considerou “elitista” a ideia de fechar a área residencial. “Acabou se tornando um loteamento comum. Do projeto inicial, ficou o muro de frente para a Faria Lima”, conta Raul Lessa. Outro problema enfrentado por Raul Lessa na época foi a inexistência de uma legislação específica sobre condomínios horizontais. “Quando lançamos o projeto do Royal Golf, em 1995, pesquisamos a legislação já existente em São Paulo”, diz o engenheiro Marcos Holzmann. “O poder municipal acabou enxergando a necessidade de uma solução jurídica, porque havia uma demanda por esses empreendimentos.” (P. B.)