Mais de 65% do entulho no DF é reciclado e pode ser reutilizado na construção civil

Cerca de 25% das seis mil toneladas de entulho produzido no Distrito Federal são depositados inadequadamente fora do lixão, segundo informações do Serviço de Limpeza Urbana do DF (SLU). Mas esse não é um problema que se restringe à capital do país. O descuido com a destinação correta do material existe ao longo de todo o Brasil.

A fim de evitar que o acúmulo aleatório desses resíduos prejudique a rotina das cidades, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), criou, em 2002, a Resolução nº 307. Ela determina que todos os municípios brasileiros e o Distrito Federal devem possuir um Plano Integrado de Gerenciamento de Resíduos de Construção Civil. De acordo com a lei, os entulhos não podem ser levados a aterros de resíduos domiciliares, e sim, precisam ser separados e encaminhados à reciclagem.

 
“Entulho é todo resíduo sólido resultante de uma obra e que não é usado na construção civil”, explica Francisco Palhares, diretor técnico do SLU. Em outras palavras, entulho são restos de construção e demolição civil. Areia, concretos, madeira, metais, plásticos, pedras e tijolos são alguns dos materiais constantemente desperdiçados que acabam por virar entulho.

Dados do SLU apontam que esses resíduos são responsáveis por aproximadamente 70% da ocupação do Lixão da Estrutural. Francisco Palhares conta que parte do entulho retirado das construções é deixado clandestinamente em locais inapropriados, principalmente à beira de rodovias com pouco movimento, em terrenos baldios, às margens do Lago Paranoá e até mesmo na rua.

As consequências da deposição irregular de entulho ameaçam a qualidade de vida urbana nas mais diversas áreas, dificultando o transporte e a circulação de pessoas, causando enchentes, ocasionando poluição visual, gerando a proliferação de vetores de doenças e contaminando águas subterrâneas pela penetração de metais de alta toxidade e de chorume.

A norma já está valendo há mais de oito anos e o Governo do Distrito Federal (GDF) deveria ter se adequado a ela até, no máximo, julho de 2004, criando áreas de descarte ambientalmente corretas em Brasília e no entorno. Mas esses espaços não existem até hoje. O diretor técnico do SLU relata que ainda não há previsão de quando o projeto de gerenciamento de entulho será implementado.

Calcula-se que a quantidade de entulho gerado nas obras corresponde, em média, a 50% do material total que não é aproveitado. A informação é de uma pesquisa de professores de Engenharia Civil da Universidade de São Paulo (USP), divulgada no portal do Projeto Reciclagem.

Diante desses números e preocupados em preservar o meio ambiente, um grupo de corporações se uniu para fazer a Associação das Empresas Coletoras de Entulho e Similares do DF (ASCOLES). O projeto reúne 15 empresas, que recolhem diariamente quatro mil toneladas de lixo na região. Esses detritos são reciclados e transformados em novos materiais para a construção civil.

 
“A quantidade de entulho reciclada em um dia é suficiente para construir 400 casas populares de 60 metros quadrados. E com a madeira reciclada é possível salvar em torno de cinco mil árvores do cerrado”, relata Paulo Roberto Gonçalves, diretor da associação.

As atividades desenvolvidas pela ASCOLES trazem vários benefícios para o Distrito Federal. Além de colaborar para que o governo fique em dia com a lei, Paulo Roberto explica que com o trabalho de reciclagem o GDF economiza de três a cinco milhões de reais na coleta de entulho. “O dinheiro economizado pode ser revertido para outros setores, como para a construção e manutenção de parques”, diz ele.

Com esse processo, menos concreto, menos areia e menos pedras precisam ser retiradas da natureza para suprir a demanda do mercado imobiliário. O entulho reciclado é transformado em material de construção para a pavimentação de vias, produção de pisos ecológicos e calçamentos.

Mas aperfeiçoar e tornar mais rápida a reciclagem não é uma tarefa que depende somente do governo ou de iniciativas isoladas. De acordo com o diretor da ASCOLES, é importante que cada cidadão faça sua parte. O primeiro passo é fazer o descarte seletivo de resíduos, separando os resíduos sólidos recicláveis, como vidro, papel, latas de alumínio e garrafas PET, do lixo orgânico (restos de alimentos e guardanapos usados). “A educação e a consciência ambiental ajudam muito no trabalho da Associação”, garante Paulo Roberto.