Os efeitos da seca, que tanto incomodam os brasilienses, têm impactos ainda mais graves na vida dos moradores da região do Grande Colorado, em Sobradinho. Sem rede de abastecimento regular, a comunidade sofre com a falta d’água e boa parte dos condomínios precisa fazer racionamento. O problema poderia ser amenizado com a construção de uma rede adutora para levar água da Companhia de Saneamento Ambiental de Brasília (Caesb) aos parcelamentos, mas a conclusão do empreendimento ainda depende do aval do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit). Há ainda outros empecilhos para a realização de obras de infraestrutura, como a proximidade com a Reserva Biológica da Contagem. Os moradores reclamam da falta de investimentos na região, que reúne parcelamentos de classe média alta.
No Grande Colorado, o abastecimento é feito apenas por poços artesianos, que foram perfurados sem nenhum controle nas últimas duas décadas. Isso contribuiu para o esgotamento dos recursos hídricos do bairro — que tem 53 condomínios e mais de 30 mil moradores. Como a situação do lençol freático é crítica, a Agência Reguladora de Águas (Adasa) não autoriza novas cisternas. Com os poços quase secos, alguns parcelamentos chegam a suspender o fornecimento por períodos superiores a 12 horas, diariamente.
Esse é o caso do Condomínio Jardim Europa 2, que abriga mais de 2 mil pessoas. A chegada do período da seca agravou o problema e fez com que a administração do local suspendesse o fornecimento de água das 12h às 18h e das 23h às 5h, ou seja, as torneiras ficam secas durante pelo menos metade do dia. Alguns moradores investiram para construir reservatórios de água, mas outros têm que enfrentar a escassez.
O servidor público José Roberto da Silva, 54 anos, mora no Jardim Europa 2 há sete anos. Desde maio, enfrenta o problema, que só deve acabar em outubro, com o início da temporada chuvosa. Para ele, o governo deveria investir mais na região, como forma de evitar esse tipo de transtorno. “Pagamos impostos altíssimos, o mínimo que a gente deveria ter é um abastecimento normal. Precisamos fazer racionamento porque não temos redes da Caesb. Acho que esse é um direito básico”, reclama José Roberto.
O subsíndico do Jardim Europa 2, Adolfo de Paulo Pereira, 51 anos, conta que o condomínio tem quatro poços artesianos e três caixas d´água. Em 2009, a administração solicitou à Adasa autorização para perfurar mais um poço, pedido que foi negado. Isso porque o parcelamento já retira 370m3 de água do subsolo diariamente, volume muito superior ao permitido. “Para fazer outro poço, seria preciso gastar pelo menos R$ 30 mil. Estávamos dispostos a investir essa quantia, mas a Adasa não autorizou. Agora, dependemos apenas da Caesb para acabar com essa difícil situação de racionamento”, explica Adolfo.
O projeto para levar água aos condomínios do Grande Colorado está orçado em R$ 5 milhões. As obras não preveem o fim do uso dos poços artesianos e o abastecimento da Caesb vai funcionar apenas como uma complementação, para evitar os racionamentos. Para lacrar as cisternas e usar exclusivamente as redes regulares, a companhia terá que criar fontes de captação, já que os recursos disponíveis hoje não são suficientes para atender uma nova demanda.
O diretor de Engenharia de Meio Ambiente da Companhia de Saneamento Ambiental de Brasília, Cristiano Magalhães Pinho, explica que será preciso transferir água da altura do Balão do Colorado até a região do Grande Colorado. Ele garante que 90% das tubulações já estão prontas. “Faltava apenas a autorização do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), que acabamos de receber, e o aval do Dnit, que esperamos ter em breve”, explica Cristiano. As autorizações são necessárias para que as redes de água passem por baixo de algumas rodovias. “Depois disso, as obras deverão ser concluídas em, no máximo, 90 dias”, promete o diretor da Caesb.
Se a solução para o problema da falta d’água parece próxima, ainda não há perspectivas para a chegada do sistema de captação de esgoto. Os recursos necessários para a obra — cerca de R$ 15 milhões — virão do Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal. Mas os estudos realizados indicavam que a elevatória deveria ser construída em área da Reserva Biológica da Contagem, o que é proibido por lei.
O chefe da unidade ecológica, Grahal Benatti, lembra que a legislação não autoriza esse tipo de obra na reserva. “Isso representaria riscos ambientais e até de contaminação das redes de abastecimento, já que algumas passam pela Contagem. Na reserva, também é feita a captação de água. Mas para construir a rede de esgoto, só mesmo fora dos limites da unidade.” A Caesb fará estudos para tentar implantar a elevatória em outro local, apesar de a topografia não ser favorável à construção.
Sem autorização
Quando os fiscais da Adasa identificam um poço artesiano perfurado sem autorização e outorga, eles lacram a cisterna. Além disso, o responsável recebe uma multa que varia de R$ 1 mil a R$ 10 mil. Quem tem um poço irregular pode procurar a Adasa e solicitar a outorga. Todos os procedimentos podem ser feitos pela internet, no site www.adasa.df.gov.br.