O rompimento da rede de esgoto em um canteiro de obras da Construtora Brasal, no Noroeste, formou uma piscina cheia de água contaminada com fezes. O mau cheiro é sentido de longe e o líquido pode transbordar se chover forte ou se houver o entupimento da rede por terra, galhos ou pedras. Caso isso ocorra, a água contaminada descerá pelo terreno, em uma área de cerrado, podendo chegar a outros canteiros de obras. O buraco fica na mesma área onde índios e seguranças das construtoras entraram em confronto pela disputa da terra.
Especialistas ouvidos pelo Correio afirmam que o lençol freático no local já está contaminado e os danos só não serão maiores porque a região não é habitada e, até onde se sabe, não tem poço artesiano para o consumo humano. Explicam ainda que parte do nitrogênio presente no esgoto fatalmente chegará ao Lago Paranoá por meio do lençol freático.
Trabalhadores com quem a reportagem conversou na tarde de ontem informaram que o esgoto começou a vazar na manhã de segunda-feira. Não havia nenhum funcionário da Brasal no local por volta das 14h30, quando o Correio esteve lá. Alunos da Universidade de Brasília (UnB) que apoiam o grupo de índios que vive no local registravam a situação em fotos e vídeo. O estudante de letras Diogo Ramalho garantiu que o caso foi denunciado na segunda ao Instituto Brasília Ambiental (Ibram) e ontem, à Polícia Militar Ambiental. Nenhum dos órgãos confirmou a informação. “Ninguém fez nada. E não se sabe se isso foi de propósito, para conseguirem a inviabilização da área para os indígenas. O buraco hoje está maior do que ontem. Não sei se porque o barranco cedeu por conta da chuva ou se foi aberto”, especulou.
Lago
Professor e pesquisador do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da UnB, Marco Antonio Almeida de Souza avalia que já houve a contaminação do lençol freático. “É 100% certo que o nitrogênio vai chegar ao Lago Paranoá. Só não causará problema porque lá é a concentração de fósforo que compromete a qualidade das águas”, esclarece.
Para o especialista, os danos seriam maiores se a região fosse habitada e se houvesse poço artesiano para o abastecimento de água das moradias. A possibilidade de transbordamento do líquido precisa ser avaliada e monitorada. “Se chover muito, pode transbordar e, nesse caso, a situação fica mais preocupante. Isso pode chegar até a pista, onde circulam veículos e pedestres”, disse.
Procurados pelo Correio, o Ibram e a Companhia de Saneamento Ambiental de Brasília (Caesb) ainda não sabiam do rompimento da rede por volta das 15h. Primeiro, o instituto respondeu por meio de nota que um “auditor fiscal do Ibram realizará uma visita ao local amanhã (hoje) para avaliação da denúncia. Após análise da situação, serão tomadas as providências necessárias”. Horas depois, informou que o órgão mandou um técnico ontem mesmo ao Noroeste e isentou a construtora de culpa.
Sem contaminação
De acordo com a nota, a Diretoria de Fiscalização do Ibram afirmou que a forte chuva entre domingo e segunda-feira provocou o deslocamento de uma parte da rede de esgoto próxima a uma projeção da construtora Brasal. “Em decorrência da movimentação de terra, ocorreu a ruptura de uma manilha que resultou no vazamento de esgoto e, portanto, a construtora não teve nenhuma responsabilidade sobre o problema”. O órgão ambiental garantiu ainda que não houve contaminação no local, uma vez que o esgoto ficou concentrado nas proximidades da manilha.
Em nota, a Brasal Incorporações lamentou o problema e informou que “o incidente no Noroeste é decorrência da interrupção da obra no terreno, por decisão judicial. Com a chuva do último domingo, a escavação que havia sido feita cedeu, ocasionando o rompimento da tubulação.” De acordo com a construtora, o buraco tem três metros de profundidade e 150 metros quadrados de área.
Técnicos da Caesb estiveram no local. Segundo a assessoria de imprensa, hoje a companhia vai começar o esgotamento da área e o reparo na rede. É possível que os custos do serviço sejam cobrados da construtura. Professor do Instituto de Geociências da UnB, Geraldo Boaventura alertou para a necessidade de se resolver logo o problema. “Apesar de no momento não haver danos significantes, é necessário bombear o excesso e reparar a rede”, disse.
Obras paradas
A confusão começou em 6 de outubro, quando as construtoras começaram a cercar algumas regiões para dar início às obras. Os índios afirmam que o local é um santuário e que uma área de 50 hectares deve ser respeitada. O terreno está sob avaliação judicial e tem sido palco de conflitos e disputas por parte de empresas e manifestantes que defendem os índios. No momento, uma decisão da Justiça impede a continuação das obras no local.