Eliminar as ocupações ilegais é um dos grandes desafios do GDF no Varjão

Ocupado irregularmente nos anos 1970, o Varjão foi legalmente reconhecido pelo governo em 1991, mas os problemas com invasões não terminaram. A despeito das políticas de remoção e remanejamento dos últimos anos, a cidade tem hoje 54% dos moradores vivendo em áreas não regularizadas. O dado está na Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad), divulgada ontem pela Companhia de Desenvolvimento do Distrito Federal (Codeplan). São habitantes precariamente alojados em barracos de madeirite, sem acesso a água encanada e que obtêm energia elétrica por meio de gambiarras. O desafio do poder público para os próximos anos será o de resolver o problema e ainda lidar com questões como a baixas escolaridade e de renda, já que 46% dos moradores não concluíram o ensino fundamental e 16,5% ganham menos de um salário mínimo.

Hoje, a maior parte das moradias irregulares do Varjão está concentrada na Quadra 11. Famílias que moravam em outras áreas foram enviadas para o Itapoã e para um conjunto de apartamentos construído para abrigá-las. A Codeplan acredita que os movimentos de transferência influenciaram a taxa de crescimento da cidade, que de 2004 a 2011 foi negativa, de -1,4%. “Isso significa que, no período, cerca de 500 pessoas deixaram a região administrativa”, informa Júlio Miragaya, diretor de Gestão de Informações do órgão. A população da cidade é de pouco mais de 5,3 mil habitantes.

Mas não são todos os moradores que se resignam a ir embora. A proximidade do Varjão com o Lago Norte e o Plano Piloto, que, juntos, garantem 53,2% dos empregos locais, é um forte estímulos para ficar. O autônomo Wenis de Oliveira Alves, 27 anos, mora na Quadra 11 há seis anos com a companheira e dois filhos, e não deseja sair da cidade onde nasceu. “Saí da casa da minha mãe e montei meu barraco. Estou esperando minha vez. Dizem que o governo vai construir um predinho”, comenta, esperançoso.

Anderson Luís Alves, 29 anos, também mora na Quadra 11 e vive de bicos de marcenaria e carpintaria como Wenis. Sua história é parecida com a do amigo. “Minha família já morava no Varjão quando eu nasci. Apesar de estar difícil arranjar trabalho, aqui a gente já conhece o lugar e se vira”, diz. Anderson, que cursou até a 6ª série do ensino fundamental, queixa-se da dificuldade de conseguir um emprego formal. “Hoje, você tem que ter o ensino médio completo até para varrer a rua”, afirma. Os filhos de Anderson e Wenis estudam na única escola da região administrativa, que oferece formação até a 4ª série do ensino fundamental.

Segundo o administrador do Varjão, José Maria Martins dos Santos, a Quadra 11 é uma área de transição. De acordo com ele, um novo prédio com apartamentos de dois quartos será construído para receber parte das famílias. A alternativa para as demais é ir para o Itapoã ou de Samambaia.

Recorrente
Para o sociólogo Marcel Bursztyn, professor da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em socioeconomia e políticas públicas, enquanto as medidas adotadas para resolver questões habitacionais como a do Varjão forem pontuais, o problema será recorrente.

“Apenas se dá início à regularização de uma área e o processo de ocupação começa outra vez. Vale lembrar que não acontece somente com as populações de baixa renda. É comum a todos os estratos sociais, dos mais pobres aos mais ricos. Criou-se uma cultura de que Brasília é o lugar em que você vai ganhar terras do Estado”, analisa.

Bursztyn acredita que a estabilização do crescimento vegetativo da população tanto do país quanto do DF amenizará o problema da demanda por moradia. No entanto, ele chama a atenção para o fato de Brasília ser ainda um forte polo de atração para pessoas em busca de trabalho.

A auxiliar de serviços gerais Adriana Araújo dos Santos, 27 anos, é prova viva disso. Baiana da cidade de Valença, ela mudou-se para o Varjão há um mês com o marido e a filha de três anos, com o objetivo de conseguir um emprego. “A diferença não é tanto o salário. É que aqui tem mais oportunidades”, conta ela, que foi contratada por um restaurante. “Meu marido ainda não conseguiu nada”, lamenta.

Independência
Antes da construção de Brasília, no fim da década de 1950, as terras do Varjão pertenciam à Fazenda Brejo ou Torto, no município de Planaltina. Elas foram desapropriadas em favor da Terracap. Os primeiros loteamentos irregulares surgiram nos 1970 e 1980. O Varjão era considerado parte do Lago Norte até 2003, quando se tornou região administrativa independente.