Ação reúne agentes de diversos órgãos para retirar invasão às margens da BR-070. Moradores protestam contra Codhab
Por volta do meio-dia de ontem, uma operação do governo retirou cerca de 100 barracos de lona e bambu montados desde a madrugada de sábado às margens da BR-070 por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Os líderes da ocupação afirmam que as pessoas que participam da tomada de terras foram prejudicadas pelo processo de seleção da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab). A equipe de 140 agentes deixou de pé a tenda que servia como cozinha do acampamento depois que os manifestantes impediram a derrubada. Dezenas de novos barracos já foram levantados na tarde de ontem após a retirada da operação.
A derrubada foi feita pela Secretaria de Ordem Pública e Social (Seops) e pela Agência de Fiscalização (Agefis). Ainda ajudaram na retirada da invasão a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, a Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) e o Serviço de Limpeza Urbana (SLU). A operação foi pacífica e transcorreu sem maiores atritos. Enquanto as tendas eram retiradas, cerca de 150 membros do movimento se reuniram na Praça do Buriti em protesto à política de habitação do DF. Líderes do MTST negociaram durante todo o dia com os secretários de Governo, Paulo Tadeu, e de Habitação, Geraldo Magela. Foi oferecido aos representantes do MTST o cadastramento das famílias em vulnerabilidade social pela Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest), para receber temporariamente o aluguel solidário, como já é política do governo.
Apesar da operação, os responsáveis pelo movimento garantem que vão continuar no local. Eles questionaram a derrubada com o argumento de que a área ocupada é privada. Já a Seops e a Agefis alegam que a terra pertence ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). “Estamos promovendo essa desocupação em função de uma ordem direta do governador. Eles fazem uma ocupação irregular e ilegítima, feita às pressas no sábado à noite”, explicou Moisés de Lima, gerente de Fiscalização da Agefis.
Durante a retirada dos barracos, os integrantes do movimento protagonizaram muitas tentativas de negociação, mas a operação não foi interrompida. Os manifestantes optaram por esperar a retirada e levantar os barracos novamente. “Não tem como fazer nada contra o efetivo deles. A gente conversa, mas eles não querem conversar. E isso não poderia estar acontecendo, eles não têm ordem judicial”, protestou Sérgio Leonel, um dos coordenadores do movimento. “O GDF não vai compactuar com invasões e novas ocupações irregulares, pois acredita que a política habitacional irá contemplar as pessoas que precisam de moradias no DF”, manifestou o governo, em nota emitida pela Secretaria de Comunicação Social.
Movimento
A maior parte das famílias que integrava a invasão às margens da BR-070 era formada por pessoas que têm moradia, mas não possuem casa própria. “Dá para voltar para casa, mas prefiro pagar pelo que é meu. Vou para onde for, porque, se a área é mesmo pública, ela é nossa”, ressaltou a empregada doméstica Adriana Gomes de Jesus, 29 anos. Moradora de Brazlândia, ela paga R$ 350 de aluguel e diz estar na lista de espera da Codhab há cinco anos.
Porém, nem todos os integrantes da invasão lutavam pelos ideais reclamados pelos líderes do movimento. Gregório de Souza Nery Filho, 61 anos, autônomo, morador da Ceilândia, admitiu não ter cadastro na Codhab, e disse ter se juntado à ocupação por sugestão da esposa. Ela tinha a esperança de conseguir os mesmos benefícios pleiteados pelos outros membros do protesto. “A gente tem lugar para morar, mas mora de aluguel. Eu nunca tive fé nisso, já sabia que não ia dar certo”, afirmou.
Casas invadidas
Ontem, também foi o dia escolhido para a ocupação de centenas de casas na Estrutural. Tratam-se de 316 residências populares incompletas, feitas pelo projeto Brasília Sustentável, programa destinado à regularização de assentamentos. A ocupação começou na última sexta-feira. Segundo o GDF, há 64 famílias habilitadas para receber as casas invadidas, já com endereços definidos. Outros 307 processos estão em análise para habilitação de mais 252 famílias. Com a resistência dos ocupantes das construções, o GDF informou que vai pedir à Justiça a reintegração de posse das casas.
Lista
O Novo Cadastro da Habitação, lançado no último dia 11, obriga todos os inscritos na antiga lista da Codhab a refazerem o cadastro de habitação até 12 de agosto. O programa foi criado para beneficiar quem mora no DF há mais de cinco anos, tem renda familiar bruta mensal de até 12 salários mínimos e nunca possuiu imóvel em Brasília. Somente é permitida uma inscrição por núcleo familiar para concorrer à aquisição de apartamentos e casas financiados por meio do programa federal Minha Casa, Minha Vida. Os cadastrados na lista serão classificados de acordo com pontuações. Recebem mais pontos os idosos e as pessoas com deficiência, além dos inscritos com mais tempo de moradia em Brasília, maior número de dependentes e maior tempo na lista da Codhab.