Em Brasília, 99% das residências têm sistema eficiente de coleta de esgoto

As ruas sem asfalto e com esgoto a céu aberto eram motivo de vergonha e muito incômodo para a comerciante Maria José Vieira, 45 anos. Moradora da Vila Estrutural, ela conviveu com a falta de infraestrutura até 2009, quando o governo concluiu as obras de saneamento na região. O sistema de coleta de esgoto mudou a vida de dona Maria e dos moradores da cidade. “Antes, as ruas fediam o tempo todo e a gente vivia com medo de pegar doenças”, conta. Por conta de obras como as realizadas na Estrutural, o Distrito Federal ostenta o título de unidade da Federação com o menor percentual de domicílios com saneamento inadequado.

Em Brasília, o índice de residências com sistema fora dos padrões foi de apenas 1%. Os dados fazem parte do Censo 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na última pesquisa, feita em 2000, esse percentual era de 3%, ou seja, houve uma queda de 67,8% no total de casas com esgoto a céu aberto ou despejado em locais impróprios. Em todos os demais estados brasileiros, caiu a quantidade de domicílios sem saneamento adequado. A média nacional de casas sem esgotamento sanitário ou acesso à coleta de lixo é de 8,1%. Há 10 anos, 14% dos domicílios estavam nessas condições.

Dificuldades
A redução foi ainda mais forte em algumas capitais, especialmente do Norte e do Nordeste, onde o número de domicílios com saneamento inadequado era alto. No Maranhão, por exemplo, 41,3% das casas não tinham esgotamento sanitário em 2000. O percentual ainda é muito alto, mas houve uma queda significativa: hoje, 23% dos domicílios estão em condição sanitária precária. Nesse quesito, Rondônia é o estado em pior situação. Lá, quase um quarto das casas não têm saneamento básico adequado.

Pela metodologia do IBGE, é considerado domicílio com saneamento adequado aquele ligado à rede geral ou à fossa séptica. Também é observado se o local tem água oferecida pelos serviços oficiais de abastecimento e se o lixo é coletado pelos serviços de limpeza. Nas casas com sistema inadequado, o lixo é enterrado, queimado ou jogado em terrenos baldios. Nesses casos, o esgoto sanitário é escoado para fossas rudimentares, valas, rios, lagos ou para o mar.

O economista Júlio Miragaya, diretor de Gestão de Informações da Companhia de Planejamento do Distrito Federal, lembra que Brasília é uma área predominantemente urbana e que o território do DF é muito pequeno. Esses dois fatores, explica, contribuem para que o Distrito Federal seja a unidade da Federação com o menor índice de domicílios com saneamento inadequado. “A maior dificuldade é levar saneamento para áreas não urbanizadas, e a maioria da população do DF está na zona urbana. Por isso, quase todos os domicílios de Brasília têm saneamento”, afirma.

O presidente da Caesb, Célio Biavati, atribui o bom resultado do Distrito Federal aos investimentos realizados na última década. “Em 10 anos, o governo investiu R$ 1,3 bilhão em infraestrutura de água e esgoto. Nesse período, foram feitas 250 mil ligações novas de água e 150 mil ligações de esgoto”, explica Biavati. Ele conta que os domicílios sem saneamento adequado estão principalmente em áreas rurais ou em novas invasões na zona urbana. “Existe um decreto que proíbe a Caesb de fazer ligações em ocupações recentes, para coibir as invasões de terra”, justifica o presidente da Caesb.

Investimentos
A expansão do sistema de saneamento no DF deixou o brasiliense protegido contra uma série de doenças infectocontagiosas que podem levar à morte. O sanitarista Pedro Tauil, professor da Universidade de Brasília (UnB), avalia: “Os investimentos em saneamento básico, que compreende o abastecimento regular de água, a coleta de lixo, a drenagem pluvial e a coleta de esgoto, melhoram significativamente os níveis de saúde da população e protegem contra várias doenças”.

Pedro Tauil, no entanto, lembra que ainda há muitas pessoas que vivem em áreas de invasão e favelas, onde o saneamento sempre é precário. “Mais de 20% da população brasileira estão nessa situação e sofrem com a falta de coleta de lixo e esgoto. Além disso, não adianta coletar o esgoto se não tratar adequadamente.”

O número de domicílios com saneamento é de 99%, mas 19% das residências do DF não têm rede de esgoto e usam sistema de fossa séptica ou outros métodos. O Censo mostrou que 641 domicílios não possuem nenhum sistema de esgotamento sanitário. Entre os brasilienses, 15% não são atendidos diretamente pelo serviço de limpeza, mas usam caçamba ou outros métodos. O grande desafio do poder público a partir de agora é fechar fossas sépticas construídas em local inadequado, especialmente próximo a poços artesianos.

Os dados divulgados pelo IBGE mostram que a maioria das casas do Distrito Federal está ligada à rede geral de abastecimento de água. Ao todo, 95% dos domicílios são abastecidos pela Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb), e os 5% restantes ainda usam água de poços artesianos ou de nascentes.

Um dos desafios para que todas as casas tenham esgoto sanitário no Brasil é o alto custo das obras. O professor do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília Geraldo Boaventura lembra que essa é uma obra de difícil execução e com pouca visibilidade política: “Executar essas obras é uma decisão política e demanda muitos recursos, mas a melhoria do saneamento é essencial.”

“No Entorno, os dados são o inverso”, atenta. “Lá, ainda há muitos municípios que não são atendidos adequadamente. E, mesmo no Distrito Federal, há áreas que precisam de investimento para garantir o saneamento completo”.

O estudante Emanuel Macedo, 20 anos, mora na Quadra 4 da Vila Estrutural e lembra-se com tristeza da época em que a cidade não tinha rede de esgoto. “Quando chovia, era um horror. A lama ficava misturada com o esgoto e a cidade toda fedia muito. A construção do saneamento na Estrutural foi a melhor coisa que aconteceu”, comenta.

Água tratada
O governo local capta água de cinco sistemas produtores diferentes, mas o principal deles é a Bacia do Descoberto. Além disso, há 10 estações de tratamento de água e 56 unidades de tratamento para cloração de poços. O DF tem ainda 6.469km de redes de distribuição de água, que atendem 774 domicílios, e 4.736km de redes coletoras de esgoto, além de 17 estações de tratamento.